A culpa

maio 3, 2009

Esse primeiro post é um texto escrito há uns 2 meses já, e meio mal-acabado…

Acabei de assistir a “O Leitor”, de Stephen Daldry, com Kate Winslet (ganhadora do Oscar de Melhor Atriz este ano por este filme) e Ralph Finnes.

Sobre a questão da culpa alemã

Não vou comentar o filme em si, e sim o conjunto de situações que faz vir à tona do que o ser humano é capaz.

É fácil condenar os alemães por terem permitido, aderido, aprovado e sido cúmplices do Holocausto. Mas não há matança cometida através das mãos do Estado no resto do mundo e em todas as épocas? Israel com os palestinos… Na África então nem se fale, houve um genocídio de 1 milhão de pessoas em poucos meses há apenas 15 anos e não se fala mais nisso. Ditaduras…ou mesmo em nações onde se diz existir pleno Estado de Direito. No Brasil de hoje… quantos morrem nas favelas cariocas(só para citar o exemplo clássico) todos os meses? NÃO são casos isolados… E são sim contra um grupo definido de pessoas, nesse caso, no âmbito social.  E a nossa culpa?

O número de mortos não pode ser um atenuante… Senão cairíamos na armadilha da “ditabranda” da Folha, julgar uma ditadura, uma matança, pelo seu número de vítimas. Nem podemos dizer que nos campos de concentração os judeus e outros não eram vitimados apenas pela morte, mas também por barbáries monstruosas. Talvez o Holocausto seja realmente mais chocante que os outros casos pelo sistema chocante que o colocava em prática, um meio “industrializado” de matar, mais do que gado no abatedouro. Mas cairíamos em armadilha de tipo parecido, em vez de julgar por números, julgar pelo modo como se dava a eliminação étnica e pela crueldade preliminar à morte. Mas a questão aqui é a morte.

Na Alemanha a matança era legalizada. Mais do que isso… era um dever. Quem a perpetuava era não só levado a fazer isso, mas estimulado, louvado como um bom alemão. As questões que levaram à ascensão do nazismo são claras em termos históricos, e já foram mais do que discutidas. Mas o que levava certas pessoas a não só tolerar, aceitar, não se rebelar, mas a PARTICIPAR dos assassinatos? Acredito que na Alemanha não existam nem existiam mais psicopatas do que em outras nações. Talvez não tenhamos coragem de nos enxergar nesse povo responsável pelo massacre de 6 milhões de seres humanos. Parece chocante… Existe a discussão do que é moralmente aceitável e do que é legalmente aceitável. Quando determinada atitude tomada não representa uma ameaça de punição para quem a perpetrou e, mais do que isso, ela é aprovada e incentivada pela sociedade,  as pessoas são capazes das piores coisas, em qualquer lugar, em qualquer época.  Seu demônio surge do fundo do seu ser. E se torna incontrolável, auto-incensurável.

Mas e a conivência de quem não empunha o machado? Se policiais executam centenas de pobres e favelados todo ano no Brasil, os brasileiros não são coniventes com isso? Afinal, as execuções são perpetradas através da legitimação do Estado, da “segurança pública” (a ironia óbvia…), não são? São maçãs podres no meio das forças policiais? Mas maçãs podres não existem em todo lugar, em toda instituição, local de trabalho, família, colégio, bairros? Por que o sistema não impede sua ação? O sistema, é sempre ele… As atitudes de cada cidadão, e de cada grupo específico de pessoas, sempre dependerão do ambiente e do contexto no qual elas vivem. A Alemanha nazista é um modelo perfeito disso. De que o homem é capaz das piores coisas quando não é punido e, principalmente, quando tem suas atitudes legitimadas pela sociedade em que vive, legalmente,  socialmente , através do Estado, das leis… da nação. Seja de cruz e espada, de suástica e pistola, de foice e martelo, de metralhadora e “caveirão”…


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